Fantasmas


Fantasmas Sandro Saraiva – 2011 (Palhaço Triste Edições)



Fantasmas Marcelo Zarra (Trilha sonora)


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A caixa de aberrações de Sandro Saraiva

Se você está aqui, obviamente, é porque fez o download deste livro. Mas o que talvez você não saiba é que acabou de baixar em seu computador uma caixa de brinquedos esquecidos. Caubóis descascados, bonecas caolhas com porta pilhas enferrujados no peito, cabeças de bailarinas encaixadas em pescoços de gladiadores, super-heróis mancos que não param mais em pé.

Assim são os personagens de Sandro Saraiva. E se há algo que pode passar perto de uma definição para o que você lerá a seguir, é que Fantasmas é uma mini enciclopédia de personagens. Dispostos em pequenos verbetes malucos, os flagrantes vão de ex-lutadores de telecatch a passageiros solitários do metrô. De matronas nazis a um sósia de Elvis Presley cuja Graceland fica num cubículo nos fundos de um cortiço em Osasco.

Sim, o autor menciona, aqui ou ali, paisagens geográficas reconhecíveis. Mas os seres que habitam estas páginas independem disso. Antes de qualquer coisa, eles moram em suas próprias cabeças, em seus próprios corações baldios, protagonistas inexoráveis de suas próprias fábulas tristes.

Manoel Bandeira disse uma vez que Murilo Mendes era um bicho da seda: ao escrever, tirava tudo de si mesmo. Vou pegar a imagem emprestada. Até porque, 1) uma possível metáfora-síntese para este livro seja a melancolia de um parque de diversões desativado; e, 2) para quem não sabe, Sandro é um exímio desenhista de aberrações urbano-circenses. Que aqui, por escrito, revelou-se um belo cuspidor de fantasmas.

Marcelo Montenegro


El baile de los muertos


El Diablo foi um obscuro lutador de Telecatch nos anos 60. Quando a Luta Livre perdeu popularidade, viu-se obrigado a trabalhar como leão-de-chácara em puteiros na augusta. No entanto, tudo isso ficou pra trás. Agora El Diablo vive de servicinhos sujos, basta que molhem sua mão.
Ainda guarda a máscara que costumava usar no ringue. Chega até a usá-la em “trabalhos especiais”.
A recorrente lembrança de fedelhos e senhorinhas xingando-o quando desferia algum golpe no lutador adversário invade sua cabeça sempre que lustra seu soco-inglês ou quando sua 9 mm irrompe a calmaria de madrugadas silenciosas.

Chico Buarque song


F tem um dragão chinês tatuado nas costas com chamas lambendo seu ombro & cauda deslizando até o cóccix. O dragão com asas de anjo serpenteia conforme F se movimenta. Entreva-se em seus longos cabelos noturnos. Bailarina Yakuza. F tem um sorriso de morfina & olhos de fogos de artifício. Pintura Kabuki. Rara porcelana quebrada.



Castelo de cartas


Sempre que a garota adentrava o vagão do metrô, Teutônio apertava o play e deixava rolar aquela mesma música do Cowboy Junkies, gravada numa fita em seu velho walkman. Havia traçado engenhosa arquitetura: convergiu dias e horários, inventou coincidências, engendrou acasos, chafurdou em conjecturas.

Mantinha-se à distância, olhava de soslaio, pelo reflexo do vidro na janela. Forjou um filme em sua cabeça: uma espécie de super-herói escalava a torre da Sumaré e, mergulhado em devaneios, observava as luzes da cidade lá embaixo e a lua prateada lá em cima.

Teutônio edificou uma parede invisível, ergueu um pedestal. Assim, quando o inevitável sumiço da garota se consumou, entregou de mão beijada o jogo. Feito um demoniozinho triste e piegas, sem oferecer resistência, sem pronunciar palavra, Teutônio abandonou a mesa, derrotado por um coringa fora de hora.


Rainha gorda


Senhora D espreita no recôndito do instinto, nos cantos sombrios da volúpia. Matrona nazi arrastando correntes e manuseando a coleira de Pavlov.

Gorda como uma porca, vilipendiando seus homenzinhos de brinquedo. Marcando a carne do rebanho com impressões violáceas, enrabando maricas fantasiados de empregadas domésticas.

Algumas cicatrizes nunca se fecham, em toda ferida há um tanto de ternura.

Senhora D com chicote & couro preto emerge, como o Monstro da Lagoa, no meio da noite e desperta todos os demônios adormecidos. Perscruta a alma em frangalhos.

Perversõezinhas dóceis e ordinárias chafurdam na sola de sua bota de salto alto, devotam sua fúria e sua compassiva piedade. Amor austero & visceral. Genuflexo. O sonho mais quente & belo.


Mil néons para Laura Scarlat

Garbosa como Greta, a iluminação dos postes era seu spotlight, diva Dietrich. Hollywood é logo ali, na Augusta. O único beijo, porém, happy end da noite, era o da lua na boca da sarjeta.