you shook me all night long



Frank, meu camarada. Há quanto tempo? Poderia ter dado certo, poderia sim Frank, aposto que poderia. Precisei de vinte anos pra sacar isso. Então a coisa toda não teria ficado apenas naqueles movimentos espasmódicos em frente ao espelho. Éramos bons pra caralho em air guitar, meu velho. Frank, queria ter podido te falar isso antes. De lá pra cá o tempo passou a 160 km/h, como eu não percebi? Você não acreditaria se te dissesse que me formei na universidade. Pois é, consegui um trabalho. Era um bom trabalho Frank, era sim. Casei, mal tive tempo de convidá-lo, foi uma festança e tanto. Pode apostar que foi. Comprei um apartamento, depois um carro. Nasceram os filhos, Frank. Me separei, casei de novo. Pode crer. Cê não vai acreditar, meu bom amigo, mas estava fechando um negócio de um sítio também. Tinha planos, Frank. Eu seria uma espécie de Urtigão. Sabe como é, tava cansado da porra toda. No final das contas, só comprei mesmo a espingarda. Poderia ter dado certo Frank, eu juro que poderia. Sempre ouvi dizer que quando a gente morre, passa um filme de nossa vida em flashback na cabeça. Pois é, Frank. Agora só me ocorre um riff de guitarra do AC/DC e a lembrança que teria sido ducaralho se você tivesse existido de fato, Frank.

rainha gorda



Senhora D espreita no recôndito do instinto, nos cantos sombrios da volúpia. Matrona nazi arrastando correntes e manuseando a coleira de Pavlov. Gorda como uma porca, vilipendiando seus homenzinhos de brinquedo, marcando a carne do rebanho com impressões violáceas, enrabando maricas fantasiados de empregadas domésticas. Algumas cicatrizes nunca se fecham, em toda ferida há um tanto de ternura. Senhora D com chicote & couro preto emerge, como o Mostro da Lagoa, no meio da noite e desperta todos os demônios adormecidos. Perscruta a alma em frangalhos. Perversõezinhas dóceis e ordinárias chafurdam na sola de sua bota de salto alto, devotam sua fúria e sua compassiva piedade. Amor austero & visceral. Genuflexo. O sonho mais quente & belo.

olímpica



Como num dia santo, num feriado, num dia de sol com a leve fragrância da brisa do mar e sereias submersas no coração do oceano, surge a menina que constrói castelos de areia na neve. Ela tem olhos orvalhados pela aurora. Ela tem o sorriso do gato de Alice. Ilusão de ótica no deserto do Atacama.

castelo de cartas



Sempre que a garota adentrava o vagão do metrô, Teutônio apertava o play e deixava rolar aquela mesma música do Cowboy Junkies, gravada numa fita em seu velho walkman. Havia traçado engenhosa arquitetura: convergiu dias e horários, inventou coincidências, engendrou acasos, chafurdou em conjecturas. Mantinha-se à distância, olhava de soslaio, pelo reflexo da janela. Forjou um filme em sua cabeça: uma espécie de super-herói escalava a torre da Sumaré e, mergulhado em devaneios, observava as luzes da cidade lá embaixo e a lua prateada lá em cima. Teutônio edificou uma parede invisível, ergueu um pedestal. Assim, quando o inevitável sumiço da garota se consumou, entregou de mão beijada o jogo. Feito um demoniozinho triste e piegas, sem oferecer resistência, sem pronunciar palavra, Teutônio abandonou a mesa, derrotado por um coringa fora de hora.

mil neons para laura scarlat



Garbosa como Greta, a iluminação dos postes era seu spotlight, diva Dietrich. Hollywood é logo ali, na Augusta. O único beijo, porém, happy end da noite, era o da lua na boca da sarjeta.

chico buarque song



F tem um dragão chinês tatuado nas costas com chamas lambendo seu ombro & cauda deslizando até o cóccix. O dragão com asas de anjo serpenteia conforme F se movimenta, entreva-se em em seus longos cabelos noturnos. Bailarina Yakuza. F tem um sorriso de morfina & olhos de fogos de artifício. Pintura Kabuki. Rara porcelana quebrada.

el baile de los muertos



El Diablo foi um obscuro lutador de Telecatch nos anos 60. Quando a Luta Livre perdeu popularidade, viu-se obrigado a trabalhar como leão-de-chácara em puteiros na augusta. No entanto, tudo isso ficou pra trás. Agora El Diablo vive de servicinhos sujos, basta que molhem sua mão. Ainda guarda a máscara que costumava usar no ringue. Chega até a usá-la em “trabalhos especiais”. A recorrente lembrança de fedelhos e senhorinhas xingando-o quando deferia algum golpe no lutador adversário invade sua cabeça sempre que lustra seu soco-inglês ou quando sua 9mm irrompe a calmaria de madrugadas silenciosas.